domingo, 17 de junho de 2012

A FORÇA EMANCIPADORA DO RISO: PIADA



UM GÊNERO A SER TRABALHADO NA ESCOLA.


No Brasil, a perspectiva de trabalho com os gêneros discursivos no ensino da língua portuguesa consolidou-se com a publicação dos PCNs (BRASIL, 1998). Para o cumprimento dos objetivos propostos pela matriz referencial (PCNs), buscamos o amparo teórico de autores como Dolz e Schneuwly (2004) que desenvolveram estudos sobre gêneros, de modo geral, e aos trabalhos de Muniz (2004) e Possenti (1998), sobre o gênero piada, de modo específico.
Esperamos colaborar, através dessa formação, para o desenvolvimento da teoria e da prática na perspectiva do ensino de linguagem baseada no gênero textual piada seus elementos constitutivos e também uma possível sequência de atividades para abordar esse gênero, com escopo de atender as expectativas de aprendizagem e contribuir para o entendimento de que a piada é um gênero de discurso que pode e deve ser trabalhado na sala de aula em razão de seu caráter lúdico e ideológico.
Entretanto, para se ensinar um gênero, é preciso antes de tudo ter clareza sobre o que diferencia esse gênero de outro, bem como as características particulares que o tornam possível de ser apreendido.
Das dimensões ensináveis do gênero piada que podem ser tomadas como instrumentos de aprendizagem são as situações de comunicação, as relações intertextuais, a estrutura narrativa, os efeitos de discurso bem como as relações existentes dentro dele, a quebra de sentido e a ambiguidade. Como Dolz e Schneuwly (2004) atestam, cada uma dessas dimensões pode se desenvolver um modelo didático – Sequencia Didática ou Projeto Didático.
No que se refere ao conteúdo veiculado, Possenti (1998) afirma que as piadas carregam discursos controversos, polêmicos ―são uma evidência de que existem discursos que se dizem — que são ditos por todos — dadas certas condições, sem que sua origem esteja relacionada a um indivíduo de forma relevante‖. Segundo o autor, o discurso humorístico parece estar muito mais ligado ao fato de se poder dizer, através dele, o que não pode/deve ser dito, provavelmente porque não há um juízo de valor sobre quem conta ou quem ouve piadas. As piadas funcionam como o lugar onde as leis (morais, éticas...) que regem a sociedade são suspensas.
Para Muniz (2004), a estrutura textual da piada é determinante para a caracterização do gênero, uma vez que é por meio dela que os gêneros humorísticos melhor se diferenciam. A estrutura da piada é, pois, constituída inerentemente pelo tipo narrativo. Geralmente apresenta forma de diálogo precedido por uma contextualização do lugar, tempo e identidade social/cultural dos personagens. A função primeira do gênero seria, ainda segundo a autora, a de fazer rir, de divertir o interlocutor, mas haveria uma função velada que poderia ser a de denunciar práticas discriminatórias ou mesmo perpetuá-las.
A piada não possui um único meio de transmissão, podendo circular tanto na oralidade quanto na linguagem escrita em meios de comunicação diversos, livros, televisão, rádio, revistas, etc.

Sintetizando as características do gênero piada, temos:
Texto curto;
Apresentam um título;
Estrutura narrativa em que primeiro acontece a contextualização do lugar ou situação, depois apresenta discurso direto (diálogo);
Demanda várias relações intertextuais;
Veicula variedades linguísticas assim como temáticas, abordando assuntos cotidianos e/ou polêmicos;


Cumprem o propósito primeiro de divertir, mas também podem ter como função, criticar, manter relações de poder e difundir preconceitos;
Geralmente apresentam discurso direto – diálogo – precedido de contextualização;
Possui uma carga de sentidos múltiplos que opera na quebra de expectativa no fechamento do texto, quando o leitor opta por escolhas ambíguas e deslocamento de sentido;
Pode ser transmitida por meio da linguagem oral ou escrita;
Circula em espaços informais em que há intimidade entre os participantes ou espaços em que há abertura para descontração.

Dadas as suas características linguísticas particulares, acreditamos que a piada seja um gênero, no mínimo, interessante para se trabalhar com os alunos aspectos de clareza e intertextualidade, principalmente.


Referências Bibliográficas
DOLZ, J. ; SCHNEUWLY, B.. Gêneros orais e escritos na escola. Tradução de Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2004.

MUNIZ, K. S.. Piadas: conceituação, constituição e práticas: um estudo de um gênero. 2004. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Federal de Campinas, Campinas.

POSSENTI, Sírio. Os Humores da Língua: Análises Linguísticas De Piadas. Campinas: Mercado das Letras, 1998.

SEQUÊNCIA DIDÁTICA PARA O ENSINO DO GÊNERO PIADA OFICINAS

OBJETIVOS

ATIVIDADES
Apresentação da
situação
- Despertar a curiosidade pelo gênero escolhido, motivando-os.
- Apresentar aspectos que podem ser aprendidos sobre o gênero.
- Explicitar o lugar do gênero na vida social e as implicações possíveis de seu domínio.
1. Apresentação de uma piada de tema a escolher.
2. Discussão sobre a finalidade da piada.
3. Discussão sobre o tema da piada.
4. Formulação de questões sobre o tema.
5. Discussão da estrutura textual da piada.
6. Apresentação de outras piadas com características diferentes (particularidades do texto).
Produção inicial
- Observar a capacidade dos alunos e suas
dificuldades a fim de definir os aspectos dos
gêneros que serão objeto de ensino/ aprendizagem.
- Estimular a criatividade.
1. Produção de uma piada. (Nesse momento é bom frisar que vale escrever alguma piada conhecida.)
2. Apresentação de algumas produções.
3. Avaliação coletiva.
Oficina 1
Estudo do tema
- Eleger temas para a leitura e produção de
piadas.
- Desenvolver a leitura crítica.
1. Elencar os temas possíveis e escolher alguns mais interessantes para discutir.
2. Discussão acerca do tema. (leitura crítica do texto considerando as crenças e valores representadas)
Oficina 2
Características
da piada
- Identificação de características gerais do
gênero piada.
- Aprender as características por meio de
atividades específicas.
1. Discussão da situação em que a piada se realiza.
2. Apresentação de uma piada para identificação de características.
3. Identificação das mesmas características em outras piadas.
3. Atividade do tipo textual narrativo.
4. Explorar os efeitos de sentido das escolhas
estilísticas da piada, considerando as características globais e particulares daquele exemplar.
Oficina 3
Característica
marcante: a
ambiguidade
- Conscientizar que na língua há várias
combinações de palavras e de sentidos.
- Aprender combinações ambíguas e como
utilizá-las em textos de humor.
- Conscientizar que esse recurso linguístico não é adequado aos outros gêneros.
1. Exposição e conceituação da homonímia.
2. Pesquisa em piadas selecionadas de homônimos.
3. Listagem dos homônimos encontrados.
4. Atividade com frases ambíguas para se selecionar o sentido.
5. Exercício com frases para se criar ambiguidade.
6. Reescrita de algumas piadas selecionadas na pesquisa com o intuito de retirar o efeito de humor.
7. Análise da reescrita.
Oficina 4
A leitura além
da piada
- Ampliar a leitura da piada, construindo uma
leitura referenciada.
- Aprender a distinguir a intertextualidade.
- Conscientizar da importância da leitura e da intertextualidade na compreensão.
1. Apresentação de piadas que contenham
intertextualidade como ponto de partida para a compreensão.
2. Atividade de pesquisa para compreender a piada.
3. Exercício com outras piadas.
4. Discussão dos exercícios.
Produção final
Apresentação
oral em festival de humor/piada
na escola ou
construção de
mural
- Produzir uma piada.
- Discutir os aspectos da piada produzida.
- Avaliar as aprendizagens efetuadas ao longo da sequência.
1. Produzir uma piada utilizando o que foi aprendido.
2. Apresentação para a classe.
3. Discussão/avaliação coletiva das produções para selecionar as que participarão do festival/mural.
4. Avaliação dos progressos realizados.
5. Apresentação para a escola.
Desdobramentos
-Aprofundar temas.
- Explorar os temas de outras formas.
-Abordar os temas preconceito e discriminação.

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