domingo, 17 de junho de 2012

INTER-TRANSDISCIPLINARIDADE E TRANSVERSALIDADE


INSTITUTO PAULO FREIRE/ PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA.


Os temas transversais dos novos parâmetros curriculares incluem Ética, Meio ambiente, Saúde, Pluralidade cultural e Orientação sexual. Eles expressam conceitos e valores fundamentais à democracia e à cidadania e correspondem a questões importantes e urgentes para a sociedade brasileira de hoje, presentes sob várias formas na vida cotidiana. São amplos o bastante para traduzir preocupações de todo País, são questões em debate na sociedade através dos quais, o dissenso, o confronto de opiniões se coloca. 

Através da Ética, o aluno deverá entender o conceito de justiça baseado na equidade e sensibilizar-se pela necessidade de construção de uma sociedade justa, adotar atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças sociais, discutindo a moral vigente e tentando compreender os valores presentes na sociedade atual e em que medida eles devem ou podem ser mudados. Através do tema Meio-ambiente o aluno deverá compreender as noções básicas sobre o tema, perceber relações que condicionam a vida para posicionar-se de forma crítica diante do mundo, dominar métodos de manejo e conservação ambiental. A Saúde é um direito de todos. Por esse tema o aluno compreenderá que saúde é produzida nas relações com o meio físico e social, identificando fatores de risco aos indivíduos necessitando adotar hábitos de autocuidado. A Pluralidade cultural tratará da diversidade do patrimônio cultural brasileiro, reconhecendo a diversidade como um direito dos povos e dos indivíduos e repudiando toda forma de discriminação por raça, classe, crença religiosa e sexo. A orientação sexual, numa perspectiva social, deverá ensinar o aluno a respeitar a diversidade de comportamento relativo à sexualidade, desde que seja garantida a integridade e a dignidade do ser humano, conhecer seu corpo e expressar seus sentimentos, respeitando os seus afetos e do outro. Educação & trabalho. 

Além desses temas, podem ser desenvolvidos os temas locais, que visam a tratar de conhecimentos vinculados à realidade local. Eles devem ser recolhidos a partir do interesse específico de determinada realidade, podendo ser definidos no âmbito do Estado, Cidade ou Escola. Uma vez feito esse reconhecimento, deve-se dar o mesmo tratamento que outros temas transversais. 



COMO TRABALHAR COM OS TEMAS TRANSVERSAIS? 


A transversalidade, bem como a transdisciplinaridade, é um princípio teórico do qual decorrem várias conseqüências práticas, tanto nas metodologias de ensino quanto na proposta curricular e pedagógica. A transversalidade aparece hoje como um princípio inovador nos sistemas de ensino de vários países. Contudo, a idéia não é tão nova. Ela remonta aos ideais pedagógicos do início do século, quando se falava em ensino global e do qual trataram famosos educadores, entre eles, os franceses Ovídio Decroly (1871-1932) e Celestin Freinet (1896-1966), os norte-americanos John Dewey (1852-1952) e William Kilpatrick (1871-1965) e os soviéticos Pier Blonsky (1884-1941) e Nadja Krupskaia (1869-1939). 

O Método Decroly dos "centros de interesse" partia da ideia da globalização do ensino para romper com a rigidez dos programas escolares. Para ele, existem 6 centros de interesse que poderiam substituir os planos de estudo construídos com base em disciplinas: a) a criança e a família; b) a criança e a escola; c) a criança e o mundo animal; d) a criança e o mundo vegetal; e) a criança e o mundo geográfico; f) a criança e o universo. Os centros de interesse são uma espécie de ideias-força em torno das quais convergem as necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais do aluno. Freinet e Paulo Freire, nesse sentido, partindo da leitura do mundo, do respeito à cultura primeira do aluno, buscaram desenvolver o aprendizado através da livre discussão dos temas geradores do universo vocabular do aluno. 

O Método dos Projetos de Kilpatrick parte de problemas reais, do dia-a-dia do aluno. Todas as atividades escolares realizam-se através de projetos, sem necessidade de uma organização especial. Originalmente ele chamou de projeto à "tarefa de casa" ("home project") de caráter manual que a criança executava fora da escola. O projeto como método didático era uma atividade intencionada que consistia em os próprios alunos fazerem algo num ambiente natural, por exemplo, construindo uma casinha poderiam aprender geometria, desenho, cálculo, história natural etc. Kilpatrick classificou os projetos em quatro grupos: a) de produção, no qual se produzia algo; b) de consumo, no qual se aprendia a utilizar algo já produzido; c) para resolver um problema e d) para aperfeiçoar uma técnica. Quatro características concorriam para um bom projeto didático: a) uma atividade motivada por meio de uma consequente intenção; b) um plano de trabalho, de preferência manual; c) a que implica uma diversidade globalizada de ensino; d) num ambiente natural. 

O Método dos Complexos de Blonsky, Pinkevich e Kupskaia busca levar à prática coletivamente o princípio da escola produtiva. Concentra todo o aprendizado em torno de três grandes grupos (complexos) de fenômenos: a Natureza, o Trabalho Produtivo e as Relações Sociais. Um grupo de educadores alemães (Braune, Krueger, Rauch) difundiu na Alemanha e Áustria o princípio da escola em comunidade de vida, isto é, a escola considerada como uma comunidade de vida e de trabalho, substituindo os planos e programas de estudo por temas globalizados de trabalho docente. 

O princípio da interdisciplinaridade permitiu um grande avanço na ideia de integração curricular. Mas ainda a ideia central era trabalhar com disciplinas. Na interdisciplinaridade os interesses próprios de cada disciplina são preservados. O princípio da transversalidade e de transdisciplinaridade busca superar o conceito de disciplina. Aqui, busca-se uma intercomunicação entre as disciplinas, tratando efetivamente de um tema/objetivo comum (transversal). Assim, não tem sentido trabalhar os temas transversais através de uma nova disciplina, mas através de projetos que integrem as diversas disciplinas. Uma primeira experiência, ainda numa visão interdisciplinar, foi realizada durante a gestão de Paulo Freire na Secretaria de Educação de São Paulo e está narrada no livro Ousadia no diálogo: interdisciplinaridade na escola pública, organizada pela professora Nídia Nacib Pontuschka. O projeto foi implantado com a ajuda de professores da Universidade de São Paulo. Buscou-se capacitar o professor para trabalhar nessa nova metodologia de ensino que consiste basicamente no trabalho coletivo e no princípio de que as várias ciências devem contribuir para o estudo de determinados temas que orientam todo o trabalho escolar. Foi respeitada a especificidade de cada área do conhecimento, mas, para superar a fragmentação dos saberes procurou-se estabelecer e compreender a relação entre uma "totalização em construção" a ser perseguida e novas relações de colaboração integrada de diferentes especialistas que trazem a sua contribuição para a análise de determinado tema gerador sugerido pelo estudo da realidade que antecede a construção curricular. 



TEMAS TRANSVERSAIS E A DISCIPLINA DE MATEMÁTICA 

Os valores éticos estão sendo deixados de lado na sociedade complexa em que vivemos, estamos vivenciando situações de extrema violência. O professor precisa resgatar a sua importância nessa sociedade, trazer para si a responsabilidade de ensinar, educar, formar cidadãos, levar ao conhecimento do aluno as informações necessárias, instigar nele a vontade de conhecer o novo. Esse papel também é do professor de Matemática, que deve seguir as orientações dos PCN’s. 

Os Parâmetros Curriculares Nacionais fornecem informações sobre os temas transversais que se relacionam com o ensino da Matemática, expressando conceitos e valores que formam o alicerce da sociedade, como ética, orientação sexual, meio ambiente, saúde e pluralidade cultural. 

O professor de matemática dos dias atuais além de trabalhar o conteúdo da sua disciplina também deve se preocupar com a formação global do aluno. 

Em relação à ética, é necessário desenvolver no estudante a capacidade de confiar em si próprio, adquirir e construir o caminho a ser percorrido durante o processo de formação. Para isso, é necessário que o professor intensifique as trocas de experiências, para que sejam valorizadas; respeite o aprendiz e suas ideias; incite no aluno a solidariedade, a ajuda ao próximo. Trabalhos em equipe reforçam os laços de amizade, compreensão e respeito. 

Com atividades apropriadas, é possível desenvolver no aluno atitudes como: 

- Confiança na própria capacidade de construir e adquirir conhecimentos matemáticos e resolver problemas com ele; 

- Empenho em participar ativamente das atividades da sala de aula; 

- Respeito à maneira de pensar dos colegas; 

Para isso é preciso o professor: 

- Valorize a troca de experiências entre os alunos; 

- Promova intercâmbio de ideias; 

- Respeite o pensamento, a produção e a maneira de expressar do aluno; 

- Deixe claro que a Matemática é para todos e não apenas para alguns mais talentosos; 

- Estimule a solidariedade entre os alunos superando o individualismo. 

O trabalho em duplas ou em equipes é próprio para o desenvolvimento de tais atitudes. 

A partir de uma visão social, o professor pode abordar temas relacionados à orientação sexual, trabalhando gráficos estatísticos sobre os índices de gravidez na adolescência, crescimento da AIDS nos diversos grupos da sociedade. 

Não cabe ao professor de Matemática dar orientação sexual aos alunos, mas, de modo transversal, poderá propor situações problema, principalmente envolvendo tabelas e gráficos, a respeito de temas sobre os quais os alunos possam refletir. 

Veja alguns exemplos que poderão ser ampliados de acordo com a turma: 

- Estatística sobre incidência de gravidez prematura entre os jovens; 

- Evolução da AIDS nos diferentes grupos (jovens, homens, mulheres, homossexuais, etc.); 

- Estatísticas sobre doenças sexualmente transmissíveis; 

- Estatísticas sobre prevenções de doenças sexualmente transmissíveis. 

É possível também trabalhar com estatísticas em situações problema que não reafirmem preconceitos em relação à capacidade de aprendizagem de alunos de sexos diferentes, bem como mostrar a diferença de remuneração e cargos de chefia entre homens e mulheres. 

Mostre ao aluno dados sobre a saúde do cidadão, os principais problemas, os índices de fome, subnutrição nacional e internacional, o número aproximado de brasileiros que vivem na linha da miséria, o custo anual do Governo com a saúde em locais que não possuem saneamento básico, cálculo do índice de massa corpórea (IMC). 

Dados estatísticos sobre vários fatores que interferem na saúde do cidadão, quando trabalhados adequadamente na sala de aula, podem conscientizar os alunos e, indiretamente, sua família. Alguns contextos apropriados para a aprendizagem de conteúdos matemáticos são: 

- Índices da fome, da subnutrição e mortalidade infantil em várias regiões do país e, em particular, naquela em que vive o aluno; - Médias de desenvolvimento físico do Brasil e em outros países; 

- Razão médico/população e suas consequências; 

- Estatísticas sobre várias doenças (dengue, malária, etc.) e como preveni-la; 

- Levantamentos de dados sobre saneamento básico, condições de trabalho, dieta básica, etc. 

O ensino da Matemática pode se relacionar com o meio ambiente através de situações que envolvam cálculo de área, volume, proporção, índices percentuais, tópicos estes que podem ser relacionados à poluição, desmatamentos, enchentes, destruição da camada de ozônio, aquecimento global. 

Este tema pode e deve ser trabalhado em vários momentos na aula de matemática. Veja alguns exemplos: 

- Coleta, organização e interpretação de dados estatísticos, formulação de hipóteses, modelagem, prática da argumentação, etc. são procedimentos que auxiliam a tomada de decisões sobre a preservação do meio ambiente. 

- A quantificação permite tomar decisões e fazer intervenções necessárias (por exemplo, reciclagem e aproveitamento de materiais). 

Demonstre ao aluno que a Matemática é um instrumento de conhecimento e pesquisa de vários povos, pois foram eles que a desenvolveram, inseriram novas técnicas de ensino, novas metodologias. Precisamos respeitar as diferenças culturais e étnicas das diversas nações existentes, pois todas sempre contribuíram e ainda contribuem para a evolução da Matemática. 

A Matemática foi e é construída por todos os grupos sociais (e não apenas por matemáticos) que desenvolvem habilidades para contar, localizar, medir, desenhar, representar, jogar e explicar, em função de suas necessidades e interesses. 

Valorizar esse saber matemático-cultural e aproximá-lo do saber escolar em que o aluno está inserido é de fundamental importância para o processo de ensino e aprendizagem. A Etnomatemática dá grande contribuição a esse tipo de trabalho. 

No estudo comparativo dos sistemas de numeração, por exemplo, os alunos poderão constatar a supremacia do sistema indo-arábico e concluir que a demora de sua adoção pelos europeus se deveu também aos preconceitos contra os povos de tez mais escuros e não cristãos. Outros exemplos poderão ser encontrados se pesquisar a produção de conhecimento matemático em culturas como a chinesa, a maia e a romana. Nesse momento entra o recurso da história da matemática. 

Situações ligadas ao tema trabalho podem se tornar contextos interessantes a serem explorados na sala de aula: o estudo de causas que determinam aumento/diminuição de empregos; pesquisa sobre oferta/procura de emprego; previsões sobre o futuro mercado de trabalho em função de indicadores atuais; pesquisas dos alunos dentro da escola ou comunidade a respeito dos valores que os jovens de hoje atribuem ao trabalho. Às vezes o consumo é apresentado como forma e objetivo de vida, transformando bens supérfluos em vitais, levando ao consumismo. É preciso mostrar que o objeto de consumo - um tênis ou uma roupa de marca, um produto alimentício ou um aparelho eletrônico, etc. - é fruto de um tempo de trabalho. 

Aspectos ligados aos direitos do consumidor também necessitam da Matemática para serem mais bem compreendidos. Por exemplo, para analisar a composição e a qualidade de produtos e avaliar seu impacto sobre a saúde e o meio ambiente, ou para analisar a razão entre o mentor preço/maior quantidade. Nesse caso, situações de oferta como "compre 3 pague 2" nem sempre são vantajosas, pois geralmente são feitas para produtos que não estão com muita saída - portanto, não há, muitas vezes, necessidade de comprá-los em grande quantidade - ou que estão com os prazos de validade próximos do vencimento. 

Para que a educação chegue ao nível de formar indivíduos construtores do próprio conhecimento, é preciso fugir das aulas somente expositivas. Temos que implantar em nossa estratégia uma relação da Matemática com os temas transversais, pois eles fornecerão maior contato do aluno com o meio externo, contribuindo para a formação daquele modelo de cidadão capaz de transformar uma sociedade. 

Texto adaptado.
'Disponibilizado pela equipe de formadores da Secretaria de Educação de Juazeiro-Ba.'



"Para fins de direitos autorais de imagem declaro que a foto usada no post não é de minha autoria e que o autor não foi identificado."

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