A CHUVA
A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou
os rios. A chuva molhou os transeuntes.
A chuva encharcou as praças.
A chuva enferrujou as máquinas.
A chuva
enfureceu as marés.
A chuva e
seu cheiro de terra.
A chuva com sua
cabeleira.
A chuva esburacou
as pedras.
A chuva alagou a favela.
A chuva de canivetes.
A chuva
enxugou a sede.
A chuva anoiteceu
de tarde.
A chuva e
seu brilho prateado.
A chuva de
retas paralelas sobre a terra curva.
A chuva
destroçou os guarda-chuvas.
A chuva
durou muitos dias.
A chuva apagou o incêndio.
A chuva
caiu.
A chuva derramou-se.
A chuva
murmurou meu nome.
A chuva ligou o para-brisa.
A chuva
acendeu os faróis.
A chuva
tocou a sirene.
A chuva com
a sua crina.
A chuva
encheu a piscina.
A chuva com
as gotas grossas.
A chuva de pingos pretos.
A chuva
açoitando as plantas.
A chuva senhora
da lama.
A chuva sem
pena.
A chuva apenas.
A chuva
empenou os móveis.
A chuva amarelou
os livros.
A chuva
corroeu as cercas.
A chuva e
seu baque seco.
A chuva e
seu ruído de vidro.
A chuva
inchou o brejo.
A chuva
pingou pelo teto.
A chuva
multiplicando insetos.
A chuva
sobre os varais.
A chuva
derrubando raios.
A huva
acabou a luz.
A chuva
molhou os cigarros.
A chuva
mijou no telhado. A chuva regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva
fez muitas poças. A chuva secou ao sol. ( Arnaldo
Antunes)
A LÍNGUA DO
NHEM
Havia uma
velhinha
que andava
aborrecida
pois dava a
sua vida
para falar
com alguém.
E estava
sempre em casa
a boa
velhinha
resmungando
sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
O gato que
dormia
no canto da
cozinha
escutando a
velhinha,
principiou
também
a miar nessa
língua
e se ela
resmungava,
o gatinho a
acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
Depois veio
o cachorro
da casa da
vizinha,
pato, cabra
e galinha
de cá, de
lá, de além,
e todos
aprenderam
a falar
noite e dia
naquela
melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
De modo que
a velhinha
que muito
padecia
por não ter
companhia
nem falar
com ninguém,
ficou toda
contente,
pois mal a
boca abria
tudo lhe
respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
(Cecília
Meireles, Ou isto ou aquilo, Nova Fronteira)
MAIS
RESPEITO, EU SOU CRIANÇA!
Prestem atenção no que
eu digo,
pois eu não
falo por mal:
os adultos
que me perdoem,
mas ser
criança é legal!
Vocês já
esqueceram, eu sei.
Por isso ou
vou lhes lembrar:
pra que ver
por cima do muro,
se é mais
gostoso escalar?
Pra que
perder tempo engordando,
se é mais
gostoso brincar?
Pra que
fazer cara tão séria,
se é mais
gostoso sonhar?
Se vocês
olham pra gente,
é chão que
veem por trás.
Pra nós,
atrás de vocês,
Há o céu, há
muito, muito mais!
Quando
julgarem o que eu faço,
olhem seus
próprios narizes:
lá no seu
tempo de infância,
será que não
foram felizes?
Mas se tudo
o que fizeram
já fugiu de
sua lembrança,
fiquem
sabendo o que eu quero:
mais
respeito, eu sou criança!
(Pedro
Bandeira)
LUA E FLOR
Eu amava
Como amava
algum cantor
De qualquer
clichê
De cabaré,
de lua e flor...
E sonhava
como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se
assina em vão...
Eu amava
Como amava
um sonhador
Sem saber
porquê
E amava ter
no coração
A certeza
ventilada de poesia
De que o
dia, amanhece não...
Eu amava
Como amava
um pescador
Que se
encanta mais
Com a rede
que com o mar
Eu amava,
como jamais poderia
Se soubesse
como te encontrar...
Eu amava
Como amava
algum cantor
De qualquer
clichê
De cabaré,
de lua e flor...
Eu sonhava
como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se
assina em vão...
Eu amava
Como amava
um pescador
Que se
encanta mais
Com a rede
que com o mar
Eu amava
como jamais poderia
Se soubesse
como te encontrar...
(Oswaldo
Montenegro)
PARÊMIA DE
CAVALO
Cavalo ruano
corre todo o ano
Cavalo baio mais veloz que o raio
Cavalo
branco veja lá se é manco
Cavalo
pedrês compro dois por mês
Cavalo
rosilho quero com filho
Cavalo
alazão a minha paixão
Cavalo
inteiro amanse primeiro
Cavalo de
sela mas não pra donzela
Cavalo preto
chave de soneto
Cavalo de
tiro não rincho, suspiro
Cavalo de
circo não corre uma vírgula
Cavalo de
raça rolo de fumaça
Cavalo de
pobre é vintém de cobre
Cavalo
baiano eu dou pra fulano
Cavalo
paulista não abaixa a crista
Cavalo
mineiro dizem que é matreiro
Cavalo do
sul chispa até no azul
Cavalo
inglês fica pra outra vez.
(Carlos
Drummond Andrade)
LINDO DEMAIS
Coração é
terra que ninguém vê
Quis ser um
dia, jardineira
de um
coração - nada colhi.
Nasceram
espinhos
e nos
espinhos me feri.
Quis ser um
dia, jardineira
de um
coração.
Cavei,
plantei.
Na terra
ingrata nada criei.
Semeador da
Parábola...
Lancei a boa
semente a gestos largos...
Aves do céu
levaram.
Espinhos do
chão cobriram.
O resto se
perdeu
na terra
durada ingratidão
Coração é
terra que ninguém vê - diz o ditado.
Plantei,
reguei, nada deu, não.
Terra de
lagedo, de pedregulho,- teu coração.
Bati na
porta de um coração.
Bati. Bati.
Nada escutei.
Casa vazia.
Porta fechada,
foi que
encontrei...
(Cora
Coralina)
A PORTA
Eu sou feita de
madeira
Madeira,
matéria morta
Mas não há
coisa no mundo
Mais viva do
que uma porta.
Eu abro
devagarinho
Pra passar o
menininho
Eu abro bem
com cuidado
Pra passar o
namorado
Eu abro bem
prazenteira
Pra passar a
cozinheira
Eu abro de
supetão
Pra passar o
capitão.
Só não abro
pra essa gente
Que diz (a
mim bem me importa...)
Que se uma
pessoa é burra
É burra como
uma porta.
Eu sou muito
inteligente!
Eu fecho a
frente da casa
Fecho a
frente do quartel
Fecho tudo
nesse mundo
Só vivo
aberta no céu!
(Vinícius de
Moraes)
O SEGREDO DE
VERÔNICA
Verônica tem
um segredo embaixo da cama: um pequeno monstro amigo. Todos os dias ela
chega da escola e corre contar as novidades para ele. Ela fala sem parar,
durante cinquenta
minutos. O monstro ouve tudo atentamente, mas nunca tem o que acrescentar, pois só fica
confinado naquele quarto. Às vezes, o gato da casa aparece para uma visita e o dia fica
mais excitante (e mais perigoso, é claro). O tal monstro anda triste e
resmungão. Quer sair,
dar um passeio, mas é determinantemente proibido!
Um dia,
Verônica trouxe sua amiga Cecília para brincar. Monstrinho já sabia: era hora de se
esconder, bem lá no cantinho. As duas estavam se divertindo pra valer, falando até pelos
cotovelos, uma animação daquelas. O monstro não conseguiu se segurar diante de tanta
empolgação. De repente, sem pensar em mais nada, ele pulou na frente das duas!
Cecília soltou um grito (pequeno) de susto, mas logo viu que ele era inofensivo
e muito, mas
muito carismático. Ela fez um montão de perguntas e os dois ficaram amigos.
Verônica, que tem o coração mais
mole que manteiga, vendo a alegria dos dois, resolveu
emprestar seu monstro para a amiga. Só por um dia! Monstrinho com medo, mas feliz,
entrou na mochila da Cecília e foi se hospedar a duas quadras dali. Verônica
não dormiu
direito, com o pensamento lá na casa da amiga.
No dia seguinte, Cecília devolveu
o amigo, com muitos beijos de despedida. Monstrinho
estava agitadíssimo. Os dois entraram no quarto e daquela vez, só ele falou. Contou tudo,
nos mínimos detalhes. Seus olhos brilhavam, suas bochechas estavam coradas
(será que ele tomou sol?).
E foi ali que Verônica percebeu o
quanto era bom ver seu monstro feliz. Agora, toda
semana, ele
visita um amigo diferente e volta todo animado, falando sem parar.
(Silvana
Rando)
A SOPA DE
PEDRA – PEDRO MALASARTES
Uma vez,
Pedro Malazartes, mineiro sanfoneiro, caipira famoso pela
sua esperteza, foi chamado para resolver um caso
interessante: as crianças de um pé de serra, lugar muito bonito e
cheio de hortas e pomares bem cuidados, não queriam
comer legumes e verduras de jeito nenhum.
Seus pais
resolveram pedir para Pedro Malazartes inventar um jeito de
elas comerem. E Pedro, com
seu jeito manso de Jeca, lá se foi. Reuniu a criançada e
pitando seu cigarro de palha, perguntou:
- E aí,
meninada! Vamos tomar uma sopa?
As crianças
viraram a cara, de má vontade, mas perguntaram de que era a sopa.
- Sopa de
Pedra! Minha maravilhosa Sopa de Pedra. Vem gente do mundo inteiro provar...
As crianças
ficaram com os olhinhos brilhando de curiosidade. E Pedro continuou:
- Mas para
tomar a Sopa de Pedra, pra ela ter maior sabor, vocês têm que ajudar a fazer. Vamos dividir
a turma de vocês em três grupos. O primeiro
vai buscar a água do rio e colocar aqui, no meu tacho. Mas tem que
ser a água limpinha, lá mesmo da nascente. O segundo
grupo vai catar as pedras no rio, mas só podem ser redondas. Oval, triangular ou quadrada
não servem. E o terceiro
grupo vai pegar legume e verdura da horta...
Lá se foram
as crianças, cantando pelo caminho ao executar as suas tarefas:
Minha sopa
de pedra tem melhor sabor...
Boto legume
da horta, só pra dar cor...
Verdura
fresquinha, um bocadinho só...
Boto água do
rio, pra ficar melhor.
E assim,
Pedro foi comandando aquela difícil tarefa...
Quando uma
criança trazia uma pedra que não era redonda, redondinha mesmo, Pedro
mandava
voltar.
E nisso, o
tempo ia passando. As crianças
com uma fome!...
Iam e
voltavam várias vezes da nascente para encher as cumbuquinhas de água limpa e
jogar no
tacho de Pedro. E os legumes
cozinhando, misturando as cores...
E Pedro
mexendo e cantando...
E as pedras
fazendo barulho no fundo.
E o
cheirinho estava danado de bom...
Não é que a
Sopa de Pedra cheirava bem?
Quando ficou
pronta, as crianças tomaram sofregamente a sopa e adoraram!
Um menino,
mais esperto, que até parecia filho do Pedro Malazartes, perguntou:
- Pedro, e
as pedras?
- Uai,
menino!
As pedras
são pesadas.
Ficam no
fundo, só para dar gostinho...
(Ana Maria
Machado)
O REINO
PERDIDO DO BELELÉU
Dizem que
todas as coisas perdidas vão para o Beleléu. Não
sei onde fica esse lugar, mas que ele existe ,
existe. Já ouvi muita gente grande, gente instruída,
dizer desanimada sempre que perdeu alguma coisa
e não achou mais:
“Foi para o
Beleléu.”
E sei também
de um menino que foi para lá. Chamava-se
Leo e um dia sumiu de casa. Só a irmã dele, a
Valdomira, não estranhou o seu sumiço.
Ele tinha
mesmo que desaparecer, foi que ela pensou. Pois tudo o que era dele não sumia?
Sumiam os lápis, os livros, as lições da escola para fazer em casa. Sumiam os brinquedos e
as meias (sempre um pé só). Sumiam as camisas, as cuecas e os botões da roupa dele.
Ia tudo para o Beleléu. Só faltava ele mesmo ir para lá. É que o Zé
Leo tinha um costume muito ruim: largava tudo por aí. Quem quisesse que guardasse.
Ele não!
Quem já viu
a maior bagunça do mundo, viu o quarto dele. Para que serviam os armários, as estantes,
as gavetas? Não sei, mas não serviam para guardar coisa alguma do Zé Leo. Se ele
trocava de roupa, lá a roupa usada esparramada pelo chão. Se escovava os
dentes, era certo
encontrar a escova jogada dentro da pia. Quando voltava da escola, largava os livros em
qualquer canto e na hora de estudar, era aquele procura-que-procura. A gente dele
já estava cansada de suas perguntas, sempre as mesmas: “Onde está
isso? Onde está aquilo? Você não viu...”
(Maria
Heloísa Penteado. No reino Perdido do Beleléu. São Paulo: Ática.)
O TOLO QUE
ERA SÁBIO
Todos os
dias o Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas
adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte
truque:
Mostravam
duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra.
Nasrudin sempre escolhia a menor. A história correu pelo
condado.
Dia após
dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas
moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor.
Até que
apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin
sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:
- Sempre que
lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será
considerado idiota pelos outros.
Nasrudin lhe
respondeu:
- O senhor
parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer
dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já
ganhei, usando este truque. E cheio de
sabedoria acrescentou:
- Não há
nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente.
Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser
inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.
(A Sabedoria
Cômica de Nasrudin)
OS TRÊS
FILHOS DO REI
Um grande
rei tinha três filhos e queria escolher um deles para ser seu
herdeiro. Isso era muito difícil, pois os três eram muito inteligentes
e corajosos. E eram trigêmeos, tendo portanto a mesma idade,
assim não havia maneira de decidir. Então ele perguntou a
um grande sábio, que deu uma ideia. O rei foi para casa e
chamou os três filhos. E a cada um deu uma sacola com
sementes de flores, e os avisou que estava indo a uma longa
viagem: “Levará alguns anos – um, dois, três, talvez mais. E isso
é uma espécie de teste para vocês. Terão que me devolver
estas sementes quando eu voltar. Aquele que proteger
melhor será o meu herdeiro”. E partiu.
O primeiro
filho pensou: “O que devo fazer com essas sementes?”. Ele as trancou num
cofre de
ferro, pois quando o pai voltasse, precisaria devolve-las como eram.
O segundo
filho pensou: “Se eu as trancar como meu irmão fez, elas morrerão. E uma
semente
morta não é mais uma semente.” Então foi ao mercado, vendeu-as e guardou o
dinheiro. E
pensou: “Quando meu pai voltar, irei ao mercado, comprarei novas sementes e
devolverei a
ele sementes melhores que as primeiras”.
Mas o
terceiro foi ao jardim e jogou as sementes em todos os lugares. E após três
anos,
quando o pai
voltou, o primeiro filho abriu seu cofre. As sementes estavam mortas,
cheirando
mal. E o pai disse: “O que? São essas as sementes que te dei? Elas tinham a
possibilidade
de desabrochar em flores e exalar um maravilhoso perfume – e essas estão
cheirando
mal! Essas não são as minhas sementes!” O filho insistiu que eram as mesmas,
e o pai
falou: “Você não é digno de ser meu herdeiro, és muito materialista”.
O segundo
filho correu ao mercado, comprou sementes, voltou para casa e as apresentou
ao pai, que
disse: “Mas essas não são as mesmas. Sua ideia foi melhor que a do seu
irmão, mas
você ainda não é capaz como gostaria que fosse. Você é um psicólogo”.
Ele foi ao
terceiro, com grande esperança e também com apreensão: “O que ele fez?”. E o
terceiro
filho o levou ao jardim e havia milhares de plantas florescendo, milhares de
flores à
toda volta.
E o filho disse: “Estas são as sementes que você me deu. Logo que estiverem
no ponto
colherei e devolverei a você!”. O pai disse: “Você é o meu herdeiro. Essa é a
maneira de
agir com as sementes!”.
(Aluísio de
Almeida. Três contos populares.)
A PRINCESA E
O GRÃO DE ERVILHA
Era uma vez
um jovem príncipe bonito e de bom coração que buscava casar-se com
uma princesa. Buscava em sua pretendente virtudes de uma verdadeira
princesa. Ela deveria ser: bondosa, caridosa, amar a natureza, atenciosa,
inteligente e bela.
Algumas
semanas depois o príncipe e a princesa se casaram e foram muito felizes.
O grão de
ervilha virou relíquia no museu do castelo, e tempos depois muitas pessoas
ainda
comentavam
sobre a história da princesa e o grão de ervilha.
(Adaptado do conto de Hans Christian Andersen)
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