Segundo Bakhtin (2000) qualquer
enunciado considerado isoladamente é, claro, individual. No entanto, cada
esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de
enunciados, sendo por isso denominado gêneros do discurso. Já Marcuschi (2003)
afirma que os gêneros textuais são fenômenos históricos profundamente
vinculados à vida cultural e social. Fruto de trabalho coletivo, os gêneros
contribuem para ordenar e estabilizar as atividades do dia a dia. São entidades
sócio discursivas e formas de ação social incontáveis em qualquer situação
comunicativa.
A produção de discursos não
acontece no vazio. Todo texto se organiza dentro de um determinado gênero. Sob
esta perspectiva, os PCNs (1998) apresentam os vários gêneros existentes que,
por sua vez, constituem formas relativamente estáveis de enunciados,
disponíveis na cultura caracterizados por três elementos: conteúdo temático,
estilo e construção composicional. Pode-se ainda afirmar que a noção de gêneros
refere-se a “famílias” de textos que compartilham algumas características
comuns, embora heterogêneas, como visão geral da ação à qual o texto se
articula, tipo de suporte comunicativo, extensão, grau de literariedade, por
exemplo, existindo em número quase ilimitado. Sendo assim, denominam-se gêneros
textuais, formas verbais de ação social relativamente estáveis, realizadas em
textos situados em comunidades de práticas sociais típicas e em domínios
discursivos específicos.
Para Bronckart (1994, p.12), os
gêneros constituem ações de linguagem que requerem do agente produtor uma série
de decisões para cuja execução ele necessita ter competência; a primeira das
decisões é a escolha que deve ser feita a partir do rol de gêneros existentes,
ou seja, ele escolherá aquele que lhe parece adequado ao contexto e à intenção
comunicativa; e a segunda é a aplicação que poderá acrescentar algo à forma
destacada ou recriá-la.
Considerando-se os gêneros textuais
formas verbais orais e escritas que resultam de enunciados produzidos em
sociedade e, no âmbito do ensino e aprendizagem de português, são vias de
acesso ao letramento, propõe-se que no ensino, as atenções estejam voltadas
para os textos que encontramos em nossa vida diária com padrões
sócio-comunicativos característicos definidos por sua composição, objetivos
enunciativos e estilos concretamente realizados por forças históricas, sociais,
institucionais e tecnológicas. Assim, a concepção de gênero diz respeito à
forma, ao conteúdo, aos propósitos comunicativos e ao percurso social. O gênero
textual reflete todo o processo social envolvido na comunicação que encerra.
Em relação às práticas
didático-pedagógicas de Língua Portuguesa precisa considerar a heterogeneidade
de textos existentes em nossa sociedade e levar em conta a necessidade de
tornar nossos alunos proficientes leitores e produtores de textos. O desafio
dos docentes está em criar situações em sala de aula que permitem aos alunos a
apropriação desta diversidade. Essa apropriação não pode estar limitada ao que
os livros didáticos trazem, nem ao que oferecem como atividades é preciso que
sejam promovidas atividades em que os alunos leiam textos nos respectivos
suportes em que foram publicados. Além de sua carga sócio cultural,
historicamente construída, os gêneros textuais servem como ferramenta essencial
na socialização do aluno.
São fortes os indícios de que o que
se tem ensinado não é o gênero em si, mas o formato engessado restrito a uma
estrutura fixa de como é o gênero. Ao invés de se trabalhar com a diversidade
de possibilidades de um único gênero, por exemplo, como é um editorial em suas
várias possibilidades sociointerativas, tem-se focalizado o que é superficial
e, quando muito, tem-se explorado algumas sequências mais comuns desse gênero.
O aluno deveria ser capaz de depreender que os gêneros textuais estão
relacionados a certas funções sociais, intimamente ligadas.
Como os gêneros se acham sempre
ancorados em alguma situação concreta, é necessária a compreensão do contexto
situacional para a plena compreensão textual. Na escrita, é importante levar em
consideração a escolha plausível do gênero mais adequado a um determinado
contexto. Esta afirmação se baseia que, se o texto é um evento singular,
situado em algum contexto de produção, seja ele oral ou escrito, é conveniente
que no ensino seja apresentada uma situação clara de produção para que sejam
compreendidas as atividades a serem desenvolvidas.
Os profissionais da linguagem
precisam levar os alunos a compreender e procurar explicar como se manifestam
os diferentes gêneros textuais. A identidade, os relacionamentos e o
conhecimento dos seres humanos são determinados pelos gêneros textuais a que
estão expostos, que produzem e consomem. O estudo dos gêneros possibilita a
exploração de algumas regularidades nas esferas sociais em que eles são
utilizados. Por isso, qualquer profissional da área de ensino de língua deveria
levar em conta esse aspecto no trabalho com o aprendiz. Embora existam estudos
voltados para a análise de gêneros, muitos ainda, estão voltados para a
estrutura do texto, nem sempre focalizam uma reflexão sobre como os diversos
gêneros circulam na sociedade e nem sempre se voltam para aspectos da interação
da escrita, tão importante para a vida e para a futura comunicação
profissional.
Aspecto importante sobre a questão
dos gêneros como objeto de ensino diz respeito à preparação do professor para
trabalhar com a diversidade textual. A imensa diversidade de gêneros forma a
língua e, sabemos que, gêneros não são entidades fixas, que permanecem
estáticos, independentemente do tempo e das mudanças ocorridas na sociedade.
Sabemos que, ao contrário de serem estáticos, há gêneros que desaparecem e
outros que nascem dependendo das necessidades dos falantes que os utilizam.
Os alunos devem se preparar para
compreender a dinâmica dos gêneros que circulam na sociedade e estarem aptos a
interagir com a escrita a que estão familiarizados e com a que não lhes é
familiar, dada a dinamicidade do discurso. No ensino, devem ser desenvolvidos
recursos para uma melhor compreensão dos aspectos cognitivos e esquemáticos que
contribuem para que um determinado discurso aconteça. Os professores devem
promover oportunidades para um aprendizado igualitário com vistas a vários
letramentos, que levam os aprendizes a compreensão de como funcionam os textos
nas sociedades. Defende-se aqui que letramento não apenas envolve compreensão
do material que circula socialmente na comunidade brasileira como também
implica o entendimento das maneiras de apropriação do sistema de escrita.
O aspecto linguístico não opera
sozinho e não encerra em si todo o potencial de textualização. Esse é o fato
mais importante nesta perspectiva teórica, pois o texto é uma entidade concreta
realizada materialmente e corporificada em gênero textual e circula em domínios
discursivos, isto é, em grandes esferas ou instâncias de produção textual ou de
atividade humana. Assim, além de ser necessário entender melhor as concepções
com que os professores devem trabalhar, é preciso oferecer propostas
metodológicas para um ensino mais eficaz da leitura e da produção de texto. Só
assim estaremos contribuindo para um ensino mais eficaz.
Resgatando a noção de que os textos
apresentam características próprias que são socialmente organizadas tanto na
fala como na escrita é que a atenção deve voltar-se para a língua em uso,
frisando-se a relevância de que o texto se manifesta por meio de gêneros. O
ensino dos gêneros nas escolas é de suma importância na formação do leitor e
scriptor ideal, não se esquecendo é claro, da formação do docente em priorizar
os gêneros como manifestações históricas e sociais do cotidiano textual de seus
alunos.
REFERÊNCIAS:
BAKHTIN, M. Os gêneros do
discurso. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1987,
p.261-305.
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO
DESPORTO. 1998. Parâmetros Curriculares Nacionais
BRONCKART. Atividade de
linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio discursivo. São
Paulo: Educ, 1999.
MARCUSCHI, L.A. Gêneros
textuais: definição e funcionalidade. In; Gêneros textuais e ensino. Rio de
Janeiro: Lucena, 2003, p. 20-36
Nenhum comentário:
Postar um comentário